Andando na trilha da cidadania – por Gaudêncio Torquato


Em seu clássico Considerações sobre o Governo Representativo, o filósofo inglês John Stuart Mill classifica os cidadãos em ativos e passivos, esclarecendo que os governantes preferem os segundos, por ser mais fácil dominar súditos ou pessoas indiferentes, mas a democracia necessita dos primeiros.

E aduz: “os súditos podem ser transformados em um bando de ovelhas que se dedicam tão somente a pastar uma ao lado da outra”. Norberto Bobbio arremata a ideia com este sarcasmo: “e as ovelhas não reclamam nem mesmo quando o capim é escasso”. A imagem calha bem nesses tempos turbulentos que o Brasil atravessa. Primeiro, pela constatação de que se expandem no território os grupamentos de cidadãos ativos. Um intenso processo de conscientização social se espraia por todas as camadas, inclusive as que habitam os porões da miséria.

Um clamor cívico tem se avolumado sob a arregimentação de ativistas de movimentos que se engajam em um processo de cidadania ativa, cuja força deriva da Constituição de 88. A Carta Magna é o marco que abriu horizontes de participação social. Pode-se até dizer que ali tomou corpo a redistribuição da política: deixou de ser um movimento de cima para baixo ou do centro para as margens para se tornar uma força de baixo para cima e para os lados.

A micropolítica

O fato é que a política refunde-se. O poder centrífugo, representado pelos Poderes formais (Executivo, Legislativo e Judiciário), passa a ser alvo de um rolo compressor, sob o manto de demandas e críticas da sociedade organizada, representada por entidades, associações, grupos, núcleos, movimentos de todos os tipos. A isso se pode chamar de micropolítica, uma modalidade que faz ecoar exigências e expectativas de comunidades.Roger-Gérard Schwartzenberg, o cientista social francês, cunha também este formato de “democracia supletiva”, que tem razão de ser no enfraquecimento das instâncias tradicionais, simbolizado pelo declínio das ideologias, amortecimento de partidos, enfraquecimento dos Parlamentos, fragilidade das oposições e desinteresse dos participantes. A micropolítica carrega novas formas de contestação, ancoradas em novos circuitos de representação como associações, sindicatos, sondagens de opinião, grupos de regiões.

A política desce de seus altares tradicionais – as casas congressuais – para se abrigar em espaços mais específicos e orgânicos. O “cidadanismo” é a extensão dessa intensa agitação social. Que, em nosso país, ganha amplitude com os direitos individuais e coletivos devidamente garantidos por nossa Lei Maior. Vale lembrar que, nas últimas décadas, foram muitas as vitórias alcançadas por grupos sob a bandeira dos direitos humanos.  A par dos avanços conquistados pelo país, registra-se no mapa das mudanças a revolução tecnológica que inunda o universo das comunicações. O fenômeno da internet, que abarca cerca de 50% da população mundial e que, entre nós, já abrange cerca de 100 milhões de internautas, é outra frente de enormes impactos. A revolução digital que ganha celeridade a cada instante amplifica ao extremo as possibilidades de interação, quebrando os eixos e as formas tradicionais da comunicação massiva.

A chamada grande mídia reparte funções e tarefas com as redes tecnológicas. A era digital nos traz um mundo interligado. Se jornais e revistas tinham como caixa de ressonância as colunas de leitores, hoje as redes sociais se prestam a ser gigantescas tribunas para comentários, análises, posicionamentos e opiniões. Os efeitos se fazem ver na extensão da conscientização crítica, no controle das tarefas de governantes, nas demandas de grupamentos, em suma, em amplo controle da representação política e dos próprios Poderes constituídos.

O fato de um alto ministro da mais alta Corte do país, o Supremo Tribunal Federal, poder ser criticado logo após proferir um voto, era algo inimaginável anos atrás. Agora, a mais alta autoridade pode acompanhar tudo que se diz sobre ela nas redes sociais. Como se pode concluir, trata-se de uma virada de mesa no fluxo informacional: as fontes, antigamente muito limitadas, se multiplicam por todos os espaços. Cada internauta pode ser fonte de informação e análise. Ou seja, a antiga equação da comunicação –F+C+M+R( Fontes, Canais, Mensagens, Receptores) – ganha nova leitura: as fontes encontram na rede tecnológica um leito natural para manifestar expressão, condição que só poucos continuam a ter na mídia tradicional ( jornais, revistas, rádio e TV).

Comunicação democrática

Esse novo posicionamento amplifica a teia de comunicação democrática. Quem quiser pode usar a autonomia cidadã para expressar opinião sobre quaisquer fatos. O tão ambicionado projeto em torno de uma comunicação democrática se concretiza. É evidente que muita coisa a se fazer para se alcançar níveis razoáveis de qualidade nas plataformas de conteúdos usadas pelas redes. Mas o fato é que a intercomunicação social se estabelece de forma abrangente, contribuindo para a socialização do conhecimento, a integração de grupos até então dispersos. O progresso tecnológico redunda em maiores controles sobre a vida social e as tarefas do Estado. O processo de investigação da corrupção pela Operação Lava Jato ganha apoio maciço da sociedade. E assim, as redes sociais contribuem para oxigenar as veias cívicas da Nação.

A inserção dessa pauta no sistema cognitivo da sociedade seria algo impensável caso tivesse como correia de transmissão apenas a mídia tradicional. Sob esse entendimento, podemos aduzir que o país começa a enterrar o ciclo da velha política sob a tuba de ressonância das mídias sociais. Novos comportamentos, novos atores, nova modelagem – eis a paisagem que sai das tintas dos milhões de internautas. Por tudo isso, é razoável apostar na hipótese de que o Brasil, apesar de todas as mazelas, caminha bem na trilha civilizatória

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